Porque nem todo mundo nasce com vocação pra alguma coisa. Agora eu tenho a Lis!

terça-feira, 12 de abril de 2016

Quem tem medo da dor do parto?

Antes de tudo preciso explicar que via de parto não define o tipo de mãe que você é. O parto é a parte mais fácil de toda a maternidade. Cada mulher sabe da sua história, seus medos e sua cultura e o que deseja nesse momento tão importante. Se você tem curiosidade ou deseja parir, como 70% das brasileiras desejam no começo da gestação (fonte: pesquisa Nascer Melhor), esse post é pra você.

Desde crianças somos levadas a acreditar que as dores do parto são insuportáveis, e que nada no mundo pode ser pior do que o momento do nascimento do bebê. Talvez esse conceito seja histórico: a própria bíblia nos faz acreditar que sentir essa dor seria um castigo, e como tal devemos sofrer, e muito. Toda dor dói. Quem sofre de enxaqueca sabe bem do que falo. Não há nada pior do que dor de dente ou pedras nos rins. E toda dor uma hora passa. Ninguém morre de dor. O corpo humano é sábio: ele conhece o limite que você pode aguentar de sofrimento.
Sempre que me perguntam sobre o nascimento da Lis, uma das primeiras perguntas que recebo é sobre a dor do parto. Mas Tai, é assim insuportável? Eu sempre fico na dúvida sobre o que responder. Eu não achei insuportável. Eu sinto saudade do meu parto, por mais que você possa achar isso um absurdo. Minha sogra pariu 3 filhos, e desde sempre me dizia: é melhor parir do que ter dor de dente. Hoje eu entendo o que ela diz. Dor de dente é lancinante e não para, é constante. Igual à enxaqueca que eu sinto. A dor do parto te dá tempo pra respirar, vem em ondas, tem intervalos (normalmente). A dor do parto é dor de vida, você sabe que logo vai acabar e o resultado final é o seu lindo bebezinho nos braços. A dor de dente não tem objetivo final nenhum. 
Tá bom amor, vamos pra maternidade. Já estava em TP ativo e achava que não!
E então você vai me dizer que, como eu fiquei pouco tempo em trabalho de parto, eu sofri menos tempo e por isso achei tranquilo. Durante a gestação, uma frase que li me marcou: não vista o chapéu de estar em trabalho de parto sem estar nele de verdade. Eu absorvi de tal forma essa frase que, mesmo estando em trabalho de parto ativo, ainda assim achava que não era a hora. Era como se eu não quisesse acreditar, já que eu imaginava que a pior parte ainda estava por vir. A questão da expectativa deve ser muito bem trabalhada durante a gestação. Eu me preparei pra ficar 3 dias sofrendo. Eu me conheço e sei que as coisas sempre demoram a acontecer pra mim. Eu me preparei para um parto sofrido, doloroso, demorado. Sem romance. Quem busca o parto normal e lê os relatos de parto, lê a parte linda e romântica da coisa. Normalmente não se escreve sobre a parte em que você vomita, faz cocô, xinga o marido, quer bater ou matar as pessoas, sente tudo "rasgando". Lembro que, no dia em que a Lis nasceu, eu comecei a me sentir estranha depois do meio-dia. Mas eu já vinha me sentindo estranha há 3 semanas, sempre alarmes falsos, os famosos pródromos. Então não dei bola, já estava de praticamente 41 semanas mas não dei bola. Jurava que ia até 42 semanas. Quando a dor apertou mesmo, já eram perto das 22 horas. Como minha mãe estava conosco e eu não podia mostrar pra ela que algo estava acontecendo (ela ficaria muito nervosa e me mandaria pra maternidade, coisa que eu sabia que não devia fazer), ignorei o que sentia por ainda mais uma hora. Quando realmente entendi o que estava acontecendo, ainda fui tomar um banho quente pra ver se sumiam as contrações. Fui pra maternidade jurando que ainda não era a hora, mas o marido estava muito nervoso e não conseguia mais ficar em casa. Fui avaliada as 2 e meia da manhã e já estava com 7 centímetros! Lembro de olhar pro marido e perguntar se era mentira hahaha. Duas horas depois Lis nasceu, às 4:29 da madrugada. Se parar pra pensar, eu senti dores por quase 12 ou 14 horas, mas pra mim, só as 2 horas na maternidade contaram! Se eu tivesse levado em consideração as primeiras contrações, que provavelmente vinham a cada 20 minutos, olha quanto tempo eu teria sofrido! Na minha cabeça, o tempo todo, aquelas ainda não eram as contrações insuportáveis, eu esperei elas virem até o último momento.


Quando fui chamada para avaliação: peraí, deixa eu curtir aqui uma contração! Essa posição era a mais confortável.
Na minha preparação, busquei relatos que fossem o mais realistas possível. Procurei também entender a fisiologia do corpo durante o parto. Saber o que estava acontecendo me tranquilizava, me fazia sentir que o fim estava próximo. Em Florianópolis e em muitas cidades, há rodas de gestantes maravilhosas e gratuitas. Eu fui em uma delas, por sorte com a minha obstetra, e lembro dela mostrando a passagem do neném pela bacia da mulher, e dizendo que essa era a hora mais dolorida, normalmente quando se pensava em desistir ou implorava por analgesia. E que, depois desse momento, quando se entrava no expulsivo (a vontade de fazer força involuntária), era muito difícil algo acontecer, a pior parte já tinha passado. Quando lembro da doula me dizendo que já via os cabelinhos, pensei: ufa, já vai acabar! Lembro também do médico dizendo que, embora eu tivesse a plena sensação de que estaria "rasgando", era só uma sensação, não estava rasgando de verdade. É o que chamam de círculo de fogo!
A frase abaixo também foi uma das partes mais importantes de todo o processo de parto:
Eu confesso, eu tinha um medo muito grande, que me assombrou a gravidez inteira, ainda que eu fingisse que ele não existia, ainda que eu guardasse ele apenas no meu inconsciente. Eu sempre tive a sensação de que teria um filho especial. Desde antes de engravidar. Mesmo que eu tivesse estudado muito, lido muito e sabendo que não é somente a via de parto que causa paralisia cerebral (acredito que esse seja o maior argumento usado pra quem quer amedrontar uma grávida que deseja parir), eu tinha muito medo de que, caso isso acontecesse, toda a culpa caísse sobre mim, por ter tentado e sido "radical" no meu desejo. Eu sabia que se chegasse no dia do parto com isso me incomodando, eu não conseguiria relaxar. Eu tentaria "segurar" a Lis dentro de mim, o que tornaria tudo mais lento e sofrido. Eu precisava exorcizar isso ainda durante a gestação. Quando estava com cerca de 37 semanas, numa noite tranquila, virei pro marido e vomitei toda minha angústia. Foram cerca de 2 horas de conversa, choro e alívio. Ele também pariu ali o mesmo medo que eu sentia, essa angústia ele também carregava. Choramos, nos abraçamos, e entendemos que, não importava o que acontecesse, estaríamos juntos e amaríamos exatamente da mesma forma a nossa bebê. E a culpa não seria de ninguém por isso. Eu sinto uma alívio muito grande até hoje quando lembro dessa conversa. Admitir meu medo e espantá-lo foi maravilhoso. A partir daquele momento, eu consegui pedir saúde para minha Lis, pois até então eu achava que não tinha esse direito.
Por último, mas não menos importante, sentir-se segura no ambiente escolhido conta muito pra amenizar a dor. Sabe-se que muitas mulheres têm mais medo de sofrer violência obstétrica do que medo da dor em si. O medo bloqueia, é natural do corpo, hormonal. Como dizia minha médica, se a coelha tá lá, "de boas", parindo, e surge uma raposa ou uma onça, o corpo dela vai liberar adrenalina pra que ela possa correr o mais rápido possível, fugindo do predador. A adrenalina bloqueia a ocitocina, o hormônio responsável pelas contrações e pelo parto. Porque a última coisa que ela precisa naquele momento é parir, ela tem mais é que proteger os filhotes dentro de si. Sendo assim, se você se sente coagida, num ambiente onde não te permitem falar, andar, comer ou qualquer coisa que te faça se sentir protegida, a dor com certeza será muito maior. É por isto que o movimento de humanização do nascimento luta: pra que os hospitais e maternidades públicos permitam à mulher sentir-se acolhida, livre em seus movimentos e amparada por quem deve dar suporte e mostrar que está tudo bem com ela e com o bebê. Eu tive a possibilidade de ter o médico e a doula que eu quis, e naquele momento nada ao meu redor incomodava. Eu estava totalmente alheia ao que acontecia fora da minha cabeça, me entreguei totalmente ao momento. Por isso se diz que o ideal é ir pra maternidade somente com 3 contrações em 10 minutos: a chance de você chegar perto de parir e sofrer menos intervenções é muito maior. Estar entregue ao parto foi tão bom que em momento nenhum me passou pela cabeça que eu poderia acabar em uma cirurgia. Eu fui lembrar que poderia ter acabado em cesárea umas 3 semanas depois. De qualquer forma, durante a gestação, eu também me preparei psicologicamente pois isso poderia acontecer e não gostaria de ficar decepcionada.
Então, se me perguntam se dói, eu respondo: defina DOR. Esse sentimento é muito individual, cada um tem seu limite. Toda dor é insuportável. Toda dor é no fundo suportável. Prepare-se pra ela, aprenda a respirar e relaxar (músculos contraídos tendem a doer mais). Durante as contrações, respire, vocalize (grite, cante, abra a boca - você abre o canal vaginal naturalmente ao fazer isso), tenha ao seu lado um acompanhante seguro da situação (que te apóie na decisão e não fique com medo), pense que é menos uma contração. Durante uma das consultas, minha obstetra virou para o marido e perguntou: você está tranquilo para o parto? Ele disse que relativamente sim. Ela então explicou que parto é paciência: não adianta botar a chaleira no fogo e ficar olhando pra ver se a água ferve mais rápido. A água vai ferver no tempo certo, a ansiedade não vai apressar o processo, assim como o bebê não vai nascer mais rápido por pressão, muito pelo contrário. Parto é dor de vida, é dor de amor, parir é instintivo, sexual, parir é se entregar. Parir é uma delícia!
EU CONSEGUI!

6 comentários:

  1. Simplesmente perfeito!

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  2. Parabéns Tayse! Seu parto foi mágico, inspirador, transformador!
    Deixa eu te contar do meu parto bem resumidamente:
    Minha bolsa rompeu as 23hs de um domingo... Rompeu e as contrações vieram de 20 em 20 minutos. Tomei banho, comi, arrumei o restante das coisas na mala, liguei pra Dra Karol, chorei de emoção (por saber que em algumas horas minha filha estaria nos meus braços)!
    Não quis ir na maternidade porque sabia que com contrações a cada 20 minutos o TP nem era efetivo!
    Deitei e tentei dormir... Às 5hs da manhã acordei com muuuuuita dor, chamei o marido e corri pro chuveiro.
    Começamos a monitorar as contrações e elas estavam de 1 em 1 minuto! Dor demaissss!!
    Mandamos áudio pra Dra Karol e ela nos orientou ir pra maternidade com calma e tranquilidade pra avaliar. Isso já era 7 da manhã de uma segunda-feira muito ensolarada (o nome da Helena significa RAIO DE SOL!!!). Moramos no continente, pegamos a via expressa PARADA! Mas tudo bem, segui firme dentro do carro com a minha irmã marcando as contrações, minha mãe rezando quietinha e meu marido dando sinal de luz por tudo que é lado (!)
    Chegamos no Ilha 8:30hs, a Dra Karol já nos aguardava, fui direto avaliar e: 5 cm! Confesso que eu esperava mais, estava há 3 horas e meia com contração de 1 em 1 minuto e só 5cm?! Mas tudo bem, não desanimei, subimos pro apto e eu corri pro chuveiro (a sala de parto estava ocupada naquele momento).
    Depois comecei a perder a noção do tempo (você sabe bem como é isso), lembro de vocalizar MUITO e de odiar passar pela contração na bola! No meio da manhã lembro de perguntar pra Dra Karol POR QUÊ COMIGO AS CONTRAÇÕES NÃO DÃO INTERVALO? Sim, nesse momento não estava mais de 1/1 minuto, estava SEM INTERVALO! Acabava uma, vinha a outra! Fiquei 90% do tempo no chuveiro e 10% na cama. Quando a Dra Karol avaliou e viu que estávamos com 7cm (isso umas 11hs) ela resolveu chamar a Camila do Fotonascer e aí eu fiquei feliz :) :)
    Em dois momentos do TP (não lembro a hora) ela me ofereceu a analgesia e eu nem respondi, mas na minha cabeça já sabia que não iria usar!
    Meu marido não saiu de perto de mim nem pra almoçar, resolveu ficar ali massageando minhas costas o tempo todo... foi indispensável toda a força que ele teve junto comigo!
    CONTINUA...

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  3. Chegamos a dilatação total as 14hs (UFA!), nesse momento fomos pra sala de parto que já estava vaga. Lembro de abrir a porta e me jogar na banheira, fiquei por alguns minutos e logo a água quente começou a me incomodar (estava fazendo 30º naquele dia), calor demais!! Minha irmã me abanava, meu marido massageava, minha mãe rezava e a Dra Karol (tentava) conversar comigo.
    Tentamos o banquinho na banheira e não deu certo, fora dela tb não deu...
    Isso já tinha passado mais de 1 hora de dilatação total... Entrei em transe, delirei, era a famosa partolândia, que loucura menina!!
    Quando chegou a vontade de fazer força parecia mesmo que Helena nasceria pelo ânus, que sensação estranha... Fui pra cama e comecei a fazer as forças longas, todo mundo APAVORADO que já viam os poucos cabelinhos da Helena e que ela estava chegando!! Mais algumas forças longas e as 16:21hs (após 2 horas e meia de expulsivo) chegou meu raio de sol... Que delícia é mesmo parir!! A gente não acredita né!
    Foram 17hs de bolsa rota e 11hs de TP ativo, com contrações de 1/1 minuto e logo em seguida sem intervalo... Quando me perguntam sobre a dor eu sempre respondo que doeu muito, e em vários momentos do TP eu achava que não iria conseguir, mas não cogitava de jeito nenhum a cesárea. Eu li muito, estudei, fui em cursos, palestras, eu queria demais parir! Isso foi fundamental! E a coisa mais certa que você escreveu: parir é a parte mais fácil da maternidade! Eu teria mais uns 10 partos natural tranquilamente :) :)
    E pra finalizar: sempre quis muito ter pelo menos dois filhos, hoje depois de conhecer esse amor avassalador, transformador, tenho medo de ter o segundinho, de não dar conta, desse mundo louco, de ter que deixar pra trabalhar... Enfim, ainda não consigo pensar em segundo filho e olha que Helena dorme a noite todinha desde os 3 meses de vida :)
    Vc já pensa??

    Era isso, perdão pelo comentário gigante!!
    Abs
    Bárbara (bahcema@hotmail.com)

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    Respostas
    1. Oi Bárbara, que lindo teu relato! Que forte tu foi, 11 horas de TP ativo! Amei o significado de Helena, não conhecia. Quando a gente sabe o que está acontecendo é mais fácil né, não cair em intervenções. Então, eu quero muito outro neném (ou outros dois, mas daí a parte financeira bloqueia haha), confesso que já queria logo, sem muita diferença de idade, o que me preocupa é que aqui a Lis não dorme assim bem, daí me imagino com dois bebês dormindo mal, vou surtar de cansaço haha..tenho medo de não dar conta também ou de não dar a atenção que a Lis merece sabe..medos tolos de mãe né? hahaha
      Obrigada por passar aqui! Beijinho

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    2. Que bacana Tayse! Tenho uma irmã e ela é a minha melhor amiga, minha companheira, madrinha da Helena, TUDO PRA MIM! Fico aqui me cobrando se não estou sendo egoísta em não dar um irmão pra ela, mas ao mesmo tempo confesso que tenho medo de não dar conta tb (na verdade conta a gente sempre dá né, só que fica louca!!) hahaha
      Agora, depois de já ser mãe, de ter parido, parece que tenho mais medo de algo dar errado no segundo parto do que tinha no primeiro, loucura né? Quem sabe com o tempo isso passe...
      E também acho que tendo outro seguido a atenção pra ambos vai ser comprometida... Ai que dificil! kkkkk
      Mas já convenci meu marido (ele queria começar a tentar o segundinho quando ela completou 6 meses, LOUCO!!) de pensar novamente no assunto quando ela tiver 5 anos... Sei que vou morrerrrr de saudade de um bebezinho!!! hihihi
      Bjos querida!

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