Porque nem todo mundo nasce com vocação pra alguma coisa. Agora eu tenho a Lis!

terça-feira, 26 de abril de 2016

9 meses na barriga, 9 meses fora dela: acabamos a nossa gestação!

9 meses dentro da barriga, 9 meses fora. Hoje finalizamos a gestação da minha pequena Lis. 18 meses de um vínculo que só aumenta a cada dia. Fechamos um ciclo pra iniciar outro maior ainda.

Pra que a espécie humana pudesse ficar em pé, muitas alterações nos ossos e musculatura do corpo tiveram de ser realizados. Sair da posição de quatro apoios para apenas dois fez com que nosso quadril fosse estreitado. Nascer ficou difícil desde então. Pra poder passar pelo canal de parto, o bebê humano tem que sair antes de estar com o cérebro totalmente formado, senão a cabeça não passaria. Se formos comparar com outros mamíferos, o bebê humano é o que nasce mais imaturo e que precisa de mais tempo para adquirir independência. Essa independência seria conquistada com o ato de engatinhar, locomover-se, conseguindo fugir de algum predador. É por volta dos 9 meses, mais ou menos, que o engatinhar do bebê acontece. Alguns especialistas consideram que apenas os 3 primeiros meses de vida seriam necessários para a maturação do cérebro do bebê. A teoria que falo aqui, do antropólogo Ashley Montagu, entende que são 9 os meses necessários para que se atinja essa maturidade.


Não é à toa que bebês que ainda não andam sejam considerados de "colo". É o colo que garante a sua sobrevivência. A pele é o maior órgão do corpo humano. Ela reveste externa e internamente nosso corpo. O sistema nervoso e a pele se originam do mesmo local, o que nos leva a crer que a pele é a parte exposta do nosso sistema nervoso. O tato é o primeiro sentido a se desenvolver. Portanto, para que o sistema nervoso amadureça, é preciso que o bebê seja estimulado, tocado, acariciado, sinta o calor de outro humano. No início do século passado, em instituições e orfanatos americanos onde bebês ficavam sozinhos, sem contato físico, sendo apenas vestidos e alimentados, 90% deles morriam. Faltava o apego emocional. Entre os animais, aqueles que não são "lambidos" pelas mães não se desenvolvem. Ao adquirir a habilidade de segurar outros objetos e se rastejar, o bebê curioso se desprende da mãe. Portanto, não, colo não vicia. O colo, o contato físico, o vínculo bem estabelecido entre mãe e filho tornam a criança mais segura e independente emocionalmente. Uma criança que sabe que pode voltar correndo para os braços do cuidador tem maior segurança de se afastar. A tentativa de criação de independência precoce, como deixar o bebê chorando, sozinho ou afastado do convívio pode levar ao efeito inverso: um adulto dependente emocionalmente de outras pessoas.



Ainda, é a partir dessa fase, perto dos 9 meses, que o bebê começa a entender o "não". É perto dos 8 meses que ele entende ações voluntárias, como jogar um brinquedo no chão para que o adulto pegue, entendendo o movimento de ação e reação. Ele não faz isso por pirraça: faz parte do seu desenvolvimento. Antes disso, não se pode considerar que um bebê faça "manha" ou "birra", uma vez que ele não entende suas emoções nem tem capacidade cognitiva para tentar "provocar" seus pais. Aliás, essa noção de sentimentos só vai ser entendida por volta dos 2 ou 3 anos, quando o bebê começa a notar que é realmente um sujeito independente. Por isso, deixar um bebê sozinho pra que ele aprenda a ser independente ou não fique manhoso não faz sentido. Veja bem, há uma questão importante a ser tratada: a ausência também é importante para o desenvolvimento do bebê enquanto sujeito. A falta de atenção da mãe ou do cuidador principal faz com que ele perceba que é uma pessoa que tem vontades e desejos, mas essa ausência tem maneiras de acontecer que não causam problemas posteriores: breves saídas, brincadeiras de esconder, até mesmo o pensamento distante por parte daquele que deveria estar 100% presente causa no bebê o desejo dessa presença. Não é deixando um bebê chorar que vai fazê-lo se acostumar com essa ausência. Ele vai apenas aprender que não adianta chamar, seu desejo não será atendido, e se acostuma com a situação, parando de chorar. Ele se acostuma à solidão.

Ao nascer, tudo que um bebê precisa é do contato corporal com a mãe ou cuidador principal, carinho, atenção. Até mesmo por uma questão de posição: dentro do útero, ele estava todo enroladinho, em posição fetal. Quando você fica por muito tempo na mesma posição, tentar mudá-la dói. Imagina como deve ser passar da posição enroladinho para a posição deitado de barriga pra cima, com as costas totalmente esticadas em um local duro como o carrinho ou colchão! Nada confortável não é mesmo? O choro também faz parte de se ter um bebê em casa: essa é a única forma de se comunicar que ele possui, portanto, o choro serve para qualquer coisa que ele precise dizer: fome, sono, frio, necessidade de contato.

Por aqui, vivemos intensamente essa gestação prolongada. Nos permitimos nos cheirar, acariciar, nos tocar. Ainda hoje, quando sinto que a Lis está mais incomodada com alguma coisa, ou muito cansada, amamento-a pele-a-pele, permitindo o contato físico máximo que ela precisa pra se acalmar. É claro que acredito na personalidade de cada criança. Algumas têm mais necessidade de contato físico que outras. Mesmo assim, sinto que estar disponível tem tornado-a uma criança bastante segura, que se permite explorar os ambientes e ir no colo de outras pessoas sem medo. Nas últimas semanas, depois de aprender a engatinhar, parece que o mundo se abriu pra ela. Tenho a sensação de que não tenho mais um bebê, ela virou uma criança da noite pro dia! Mesmo que eu queira, é difícil ela aceitar um colo meu. O chão tem sido muito mais interessante, e, desde que ela esteja segura, tenho permitido que ela se suje o máximo possível, levante em tudo que alcance, entenda sua noção corporal. Essa fase é importantíssima para a próxima, do andar. Se você ainda está grávida ou tem um bebê recém-nascido, permita-se viver intensamente essa fase do colo. Curta a sensação de pele-a-pele, atenda seu bebê, leia sobre a extero-gestação. Se sentir-se confortável, tenha um sling, carregue seu bebê agarrado junto a você, não há sensação mais deliciosa do que a cabecinha dele deitada junto ao seu peito. Conecte-se à mãe-bicho que existe no seu interior, siga seus instintos, permita-se lamber sua cria!

Deixo aqui duas sugestões de livros interessantes sobre o tema: Besame Mucho (Carlos Gonzalez); Tocar, o significado humano da pele (Ashley Montagu). 



terça-feira, 12 de abril de 2016

Quem tem medo da dor do parto?

Antes de tudo preciso explicar que via de parto não define o tipo de mãe que você é. O parto é a parte mais fácil de toda a maternidade. Cada mulher sabe da sua história, seus medos e sua cultura e o que deseja nesse momento tão importante. Se você tem curiosidade ou deseja parir, como 70% das brasileiras desejam no começo da gestação (fonte: pesquisa Nascer Melhor), esse post é pra você.

Desde crianças somos levadas a acreditar que as dores do parto são insuportáveis, e que nada no mundo pode ser pior do que o momento do nascimento do bebê. Talvez esse conceito seja histórico: a própria bíblia nos faz acreditar que sentir essa dor seria um castigo, e como tal devemos sofrer, e muito. Toda dor dói. Quem sofre de enxaqueca sabe bem do que falo. Não há nada pior do que dor de dente ou pedras nos rins. E toda dor uma hora passa. Ninguém morre de dor. O corpo humano é sábio: ele conhece o limite que você pode aguentar de sofrimento.
Sempre que me perguntam sobre o nascimento da Lis, uma das primeiras perguntas que recebo é sobre a dor do parto. Mas Tai, é assim insuportável? Eu sempre fico na dúvida sobre o que responder. Eu não achei insuportável. Eu sinto saudade do meu parto, por mais que você possa achar isso um absurdo. Minha sogra pariu 3 filhos, e desde sempre me dizia: é melhor parir do que ter dor de dente. Hoje eu entendo o que ela diz. Dor de dente é lancinante e não para, é constante. Igual à enxaqueca que eu sinto. A dor do parto te dá tempo pra respirar, vem em ondas, tem intervalos (normalmente). A dor do parto é dor de vida, você sabe que logo vai acabar e o resultado final é o seu lindo bebezinho nos braços. A dor de dente não tem objetivo final nenhum. 
Tá bom amor, vamos pra maternidade. Já estava em TP ativo e achava que não!
E então você vai me dizer que, como eu fiquei pouco tempo em trabalho de parto, eu sofri menos tempo e por isso achei tranquilo. Durante a gestação, uma frase que li me marcou: não vista o chapéu de estar em trabalho de parto sem estar nele de verdade. Eu absorvi de tal forma essa frase que, mesmo estando em trabalho de parto ativo, ainda assim achava que não era a hora. Era como se eu não quisesse acreditar, já que eu imaginava que a pior parte ainda estava por vir. A questão da expectativa deve ser muito bem trabalhada durante a gestação. Eu me preparei pra ficar 3 dias sofrendo. Eu me conheço e sei que as coisas sempre demoram a acontecer pra mim. Eu me preparei para um parto sofrido, doloroso, demorado. Sem romance. Quem busca o parto normal e lê os relatos de parto, lê a parte linda e romântica da coisa. Normalmente não se escreve sobre a parte em que você vomita, faz cocô, xinga o marido, quer bater ou matar as pessoas, sente tudo "rasgando". Lembro que, no dia em que a Lis nasceu, eu comecei a me sentir estranha depois do meio-dia. Mas eu já vinha me sentindo estranha há 3 semanas, sempre alarmes falsos, os famosos pródromos. Então não dei bola, já estava de praticamente 41 semanas mas não dei bola. Jurava que ia até 42 semanas. Quando a dor apertou mesmo, já eram perto das 22 horas. Como minha mãe estava conosco e eu não podia mostrar pra ela que algo estava acontecendo (ela ficaria muito nervosa e me mandaria pra maternidade, coisa que eu sabia que não devia fazer), ignorei o que sentia por ainda mais uma hora. Quando realmente entendi o que estava acontecendo, ainda fui tomar um banho quente pra ver se sumiam as contrações. Fui pra maternidade jurando que ainda não era a hora, mas o marido estava muito nervoso e não conseguia mais ficar em casa. Fui avaliada as 2 e meia da manhã e já estava com 7 centímetros! Lembro de olhar pro marido e perguntar se era mentira hahaha. Duas horas depois Lis nasceu, às 4:29 da madrugada. Se parar pra pensar, eu senti dores por quase 12 ou 14 horas, mas pra mim, só as 2 horas na maternidade contaram! Se eu tivesse levado em consideração as primeiras contrações, que provavelmente vinham a cada 20 minutos, olha quanto tempo eu teria sofrido! Na minha cabeça, o tempo todo, aquelas ainda não eram as contrações insuportáveis, eu esperei elas virem até o último momento.


Quando fui chamada para avaliação: peraí, deixa eu curtir aqui uma contração! Essa posição era a mais confortável.
Na minha preparação, busquei relatos que fossem o mais realistas possível. Procurei também entender a fisiologia do corpo durante o parto. Saber o que estava acontecendo me tranquilizava, me fazia sentir que o fim estava próximo. Em Florianópolis e em muitas cidades, há rodas de gestantes maravilhosas e gratuitas. Eu fui em uma delas, por sorte com a minha obstetra, e lembro dela mostrando a passagem do neném pela bacia da mulher, e dizendo que essa era a hora mais dolorida, normalmente quando se pensava em desistir ou implorava por analgesia. E que, depois desse momento, quando se entrava no expulsivo (a vontade de fazer força involuntária), era muito difícil algo acontecer, a pior parte já tinha passado. Quando lembro da doula me dizendo que já via os cabelinhos, pensei: ufa, já vai acabar! Lembro também do médico dizendo que, embora eu tivesse a plena sensação de que estaria "rasgando", era só uma sensação, não estava rasgando de verdade. É o que chamam de círculo de fogo!
A frase abaixo também foi uma das partes mais importantes de todo o processo de parto:
Eu confesso, eu tinha um medo muito grande, que me assombrou a gravidez inteira, ainda que eu fingisse que ele não existia, ainda que eu guardasse ele apenas no meu inconsciente. Eu sempre tive a sensação de que teria um filho especial. Desde antes de engravidar. Mesmo que eu tivesse estudado muito, lido muito e sabendo que não é somente a via de parto que causa paralisia cerebral (acredito que esse seja o maior argumento usado pra quem quer amedrontar uma grávida que deseja parir), eu tinha muito medo de que, caso isso acontecesse, toda a culpa caísse sobre mim, por ter tentado e sido "radical" no meu desejo. Eu sabia que se chegasse no dia do parto com isso me incomodando, eu não conseguiria relaxar. Eu tentaria "segurar" a Lis dentro de mim, o que tornaria tudo mais lento e sofrido. Eu precisava exorcizar isso ainda durante a gestação. Quando estava com cerca de 37 semanas, numa noite tranquila, virei pro marido e vomitei toda minha angústia. Foram cerca de 2 horas de conversa, choro e alívio. Ele também pariu ali o mesmo medo que eu sentia, essa angústia ele também carregava. Choramos, nos abraçamos, e entendemos que, não importava o que acontecesse, estaríamos juntos e amaríamos exatamente da mesma forma a nossa bebê. E a culpa não seria de ninguém por isso. Eu sinto uma alívio muito grande até hoje quando lembro dessa conversa. Admitir meu medo e espantá-lo foi maravilhoso. A partir daquele momento, eu consegui pedir saúde para minha Lis, pois até então eu achava que não tinha esse direito.
Por último, mas não menos importante, sentir-se segura no ambiente escolhido conta muito pra amenizar a dor. Sabe-se que muitas mulheres têm mais medo de sofrer violência obstétrica do que medo da dor em si. O medo bloqueia, é natural do corpo, hormonal. Como dizia minha médica, se a coelha tá lá, "de boas", parindo, e surge uma raposa ou uma onça, o corpo dela vai liberar adrenalina pra que ela possa correr o mais rápido possível, fugindo do predador. A adrenalina bloqueia a ocitocina, o hormônio responsável pelas contrações e pelo parto. Porque a última coisa que ela precisa naquele momento é parir, ela tem mais é que proteger os filhotes dentro de si. Sendo assim, se você se sente coagida, num ambiente onde não te permitem falar, andar, comer ou qualquer coisa que te faça se sentir protegida, a dor com certeza será muito maior. É por isto que o movimento de humanização do nascimento luta: pra que os hospitais e maternidades públicos permitam à mulher sentir-se acolhida, livre em seus movimentos e amparada por quem deve dar suporte e mostrar que está tudo bem com ela e com o bebê. Eu tive a possibilidade de ter o médico e a doula que eu quis, e naquele momento nada ao meu redor incomodava. Eu estava totalmente alheia ao que acontecia fora da minha cabeça, me entreguei totalmente ao momento. Por isso se diz que o ideal é ir pra maternidade somente com 3 contrações em 10 minutos: a chance de você chegar perto de parir e sofrer menos intervenções é muito maior. Estar entregue ao parto foi tão bom que em momento nenhum me passou pela cabeça que eu poderia acabar em uma cirurgia. Eu fui lembrar que poderia ter acabado em cesárea umas 3 semanas depois. De qualquer forma, durante a gestação, eu também me preparei psicologicamente pois isso poderia acontecer e não gostaria de ficar decepcionada.
Então, se me perguntam se dói, eu respondo: defina DOR. Esse sentimento é muito individual, cada um tem seu limite. Toda dor é insuportável. Toda dor é no fundo suportável. Prepare-se pra ela, aprenda a respirar e relaxar (músculos contraídos tendem a doer mais). Durante as contrações, respire, vocalize (grite, cante, abra a boca - você abre o canal vaginal naturalmente ao fazer isso), tenha ao seu lado um acompanhante seguro da situação (que te apóie na decisão e não fique com medo), pense que é menos uma contração. Durante uma das consultas, minha obstetra virou para o marido e perguntou: você está tranquilo para o parto? Ele disse que relativamente sim. Ela então explicou que parto é paciência: não adianta botar a chaleira no fogo e ficar olhando pra ver se a água ferve mais rápido. A água vai ferver no tempo certo, a ansiedade não vai apressar o processo, assim como o bebê não vai nascer mais rápido por pressão, muito pelo contrário. Parto é dor de vida, é dor de amor, parir é instintivo, sexual, parir é se entregar. Parir é uma delícia!
EU CONSEGUI!

terça-feira, 5 de abril de 2016

Sobre saltos, choro de mãe e dormir pouco.

Pra todas as mães cansadas: essa noite eu chorei. Chorei de cansaço, chorei de sono. Nas duas últimas semanas peguei uma gripe fortíssima, que respingou na Lis. Ao mesmo tempo, ela completou 8 meses, tem 4 dentes em cima nascendo, aprendeu a engatinhar, entrou na fase da angústia da separação e eu voltei a trabalhar. Há 2 semanas sinto dores de cabeça diárias, pela privação de sono. Há 2 semanas Lis simplesmente não dorme mais do que 2 horas seguidas durante a noite, sendo que algumas noites ela literalmente não larga a teta. Mesmo que esteja apagada dormindo. FERRADA no sono, eu tiro e ela chora. Quer dormir agarrada. Há duas semanas eu não entro em sono profundo.
Com a Lis engatinhando, não sobra tempo de fazer nada enquanto ela está acordada. O dia se resume em tirá-la da tomada e colocá-la no tatame, tirá-la do lixeiro e colocá-la no tatame, tirá-la da sacada e colocá-la no tatame, tirá-la dos armários e colocá-la no tatame. Tirá-la de casa, uma vez que já está entediada do bendito tatame. Essa noite ela dormiu às 21 horas. Eu poderia ter aproveitado e ido dormir também, mas a casa não se limpa sozinha. Eu nunca liguei pra bagunça, mas em algum momento é necessário arregaçar as mangas e resolver a sujeira, ainda mais com ela se esfregando no chão. Quando finalizei, comi, tomei banho e deliciosamente deitei. Eram 23:30. Ela acordou. E não dormiu mais. Quando ouvi o primeiro resmungo, eu quis chorar. Acho que quando eram perto de 2 horas da manhã, ela ainda não tinha ferrado no sono de novo. A euforia de ter aprendido a engatinhar faz minha nenê sentar, ficar de quatro, sorrir, tudo isso enquanto dorme. Faz parte do salto de desenvolvimento, repetir incessantemente tudo o que aprende. Olho e ela está exausta, de olhinhos fechados, chorando por não conseguir dormir, sonâmbula repetindo os movimentos que aprendeu durante o dia. Amamentar não resolveu, embalar não resolvia, deixá-la na cama era inútil. Então eu chorei. Chorei embalando-a, de olhos fechados, respirando fundo pra que ela não sentisse o que eu estava sentindo. Ela poderia ficar ainda mais ansiosa e piorar a situação. A fusão emocional que existe entre a mãe e o bebê nessas horas é irritante. 
Me peguei pensando no que eu poderia estar errando. Me peguei pensando em tudo que leio, em todas as minhas convicções, e pensei se em algum momento faria sentido tudo o que faço pensando nela e não pensando em mim. Se eu tivesse dado o raio da chupeta, talvez ela estivesse dormindo tranquilamente. Se eu tivesse feito treinamento de sono, talvez ela estivesse dormindo lindamente. Senti raiva de todos os comentários que já ouvi de que deveria fazer isso ou aquilo, justamente porque não fiz, talvez ela estivesse dormindo lindamente. Senti raiva de ter ficado feliz em voltar a trabalhar, por quê raios não resolvi ser mãe em tempo integral? Esse talvez seja o momento mais cansativo que já passei. Lis está começando a notar que eu e ela não somos somente um ser, o que a deixa ansiosa e querendo estar grudada comigo o tempo todo. Como em tudo na vida, a noite as coisas são piores, os sentimentos se exageram. É a chamada angústia da separação. Pode durar dias, mas pode durar meses, depende do bebê. E o pai? Ela não quer o pai, ela chora ainda mais se ele tenta acalmá-la.
Entender essas fases alivia um pouco. Enquanto eu chorava e a embalava, rezei. Pedi paciência, pois sabia o que estava acontecendo, sei que é só uma fase. Compreender as etapas do desenvolvimento deles alivia o cansaço, a culpa, a irritação. Rezei pedindo que passe logo, ou que pelo menos o pouco tempo que eu dormisse me revigorasse. Rezei pedindo novamente paciência. CALMA. P-A-C-I-Ê-N-C-I-A. A culpa não é dela. Lembro de uma noite dessas, quando ela tinha perto de dois meses, em que eu perdi a paciência. Embalei-a um pouco mais rápido do que o habitual, segurando-a com mais firmeza do que o normal. Toda mãe já viveu isso. Não cheguei a sacudi-la pois já tinha lido sobre a Síndrome do bebê Sacudido e sabia do perigo, mas carrego peso na consciência desde aquele dia. Ela não tinha culpa. Desde então respiro fundo nesses momentos. Enquanto eu chorava, de olhos fechados, senti uma mãozinha passar no meu rosto. Como se ela entendesse, tentava alcançar meus olhos, me acalmando. Chorar descarrega a tensão né? Dormimos. Ela ainda acordou mais uma vez depois. 
Então, às seis da manhã, meu celular despertou. Ela mamou novamente e apagou. Eu levantei e um sol lindo raiava lá fora. É como se Deus nos desse todos os dias a oportunidade de fazer melhor, ou pelo menos diferente. O cansaço já não era tanto, mesmo tendo dormido apenas uma ou duas horas. O corpo se acostuma a dormir pouco. A sensação de estar no caminho certo tomou conta de mim. Sei que no futuro vou entender que fiz o máximo que pude. Nada que eu tivesse feito de diferente faria-a dormir nessas semanas. Conversando com amigas que vivem a mesma etapa, descobrimos que estamos todas no mesmo barco, esgotadas, sem dormir. Saber que não chorei sozinha essa noite foi reconfortante. Se você também está na mesma canoa furada, tirando água com tampinha de dentro como nós, respire fundo, entenda os marcos de desenvolvimento, tenha calma. Não é que seu filho esteja mimado, birrento ou qualquer coisa parecida. É apenas uma etapa de maturação do seu pequenino corpinho. Vai passar, é só uma fase, vai passar.